Saturday, November 30, 2002

Estou sem meu Cais.
Meu Cais quiz ser barco...
E Partiu sem bússula,
talvez para não ter mesmo como voltar.
Está a dois meses seguindo às estrelas.
Entre as estrelas, és agora uma estrela também.

O mar é seu Mari... pra sempre!!!

fragmento de Ode marítima de Pessoa.

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! 
E quando o navio larga do cais 
E se repara de repente que se abriu um espaço 
Entre o cais e o navio, 
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, 
Uma névoa de sentimentos de tristeza 
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas 
Como a primeira janela onde a madrugada bate, 
E me envolve como uma recordação duma outra pessoa 
Que fosse misteriosamente minha. 

Ah, quem sabe, quem sabe, 
Se não parti outrora, antes de mim, 
Dum cais; se não deixei, navio ao sol 
Oblíquo da madrugada, 
Uma outra espécie de porto? 
Quem sabe se não deixei, antes de a hora 
Do mundo exterior como eu o vejo 
Raiar-se para mim, 
Um grande cais cheio de pouca gente, 
Duma grande cidade meio-desperta, 
Duma enorme cidade comercial, crescida, apoplética, 
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo? 

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, 
Real, visível como cais, cais realmente, 
O Cais Absoluto por cujo modelo inconscientemente imitado 
Insensivelmente evocado, 
Nós os homens construímos 
Os nossos cais de pedra atual sobre água verdadeira, 
Que depois de construídos se anunciam de repente 
Coisas-Reais, Espíritos-Coisas, Entidades em Pedra-Almas, 
A certos momentos nossos de sentimento-raiz 
Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta 
E, sem que nada se altere, 
Tudo se revela diverso. 

Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações! 
O Grande Cais Anterior, eterno e divino! 
De que porto?  Em que águas?  E porque penso eu isto? 
Grandes Cais como os outros cais, mas o Único. 
Cheio como eles de silêncios rumorosos nas antemanhãs, 
E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes 
E chegadas de comboios de mercadorias, 
E sob a nuvem negra e ocasional e leve 
Do fundo das chaminés das fábricas próximas 
Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha, 
Como se fosse a sombra duma nuvem que passasse sobre água sombria. 

Ah, que essencialidade de mistério e sentido parados  
Em divino êxtase revelador  
Às horas cor de silêncios e angústias 
Não é ponte entre qualquer cais e O Cais! 

Sunday, November 03, 2002

Palavra em palavra
Tento codificar aquilo que sinto.
Vã ilusão.
Como engrenagens errantes
Com línguas subservientes
Sentimos o que traduzimos.
Dizemos o que a língua quer.
(Há quem a chame de fascista.)
Mas ela diz: insista, codifique, permute
Estereótipos de arquétipos,
Enigmas histéricos
para céticos Édipos.
E no fim, quanto mais belas
Menos inteligíveis são as palavras.
Talvez, assim as escrevemos
Para que não nos entendam.
Para manter certas coisas na escuridão,
Imaculadas, e protegidas
Da força da língua.
Molhada.
Para que servem palavras?
A melhor forma de dizer é sem mediação.
É ação.
De língua com língua.
Úmido código.
Preciso lhe falar...

Abandono a régua e o esquadro
Arquiteto a desconstrução
Um traço imperfeito
Impreciso e ideal – real
Instável em sua existência
Maleável esboço
De um cômodo para guardar o que se queira
Onde tudo cabe, menos as constantes
Sem a ditadura do esquadro
Fica apenas um fluir estético
A surpresa das formas mutantes
Orquestrações fuvistas
Cores ou manchas
As linhas precisas são hipócritas
Por serem mais reais do que o real
Escolho a realidade bruta
Tão real quanto pode ser o ideal.
Seduzir é ocultar-se.
Obviedade subterrânea
Como tesouro escondido em seu umbigo.
A sedução é sempre interior e profunda.
Por detrás de seu rosto,
E sob você
Trama sua teia
Numa estratégia secreta.
Não posso seduzir-te,
Não posso esconder nem ocultar.
O que sinto emerge – sentimento claustrofóbico.
Você sim, seduz.
O labirinto é seu, está em você
Mesmo que não saiba, mesmo que não queira.
Quem sabe sou eu.
Quem tem o mapa sou eu,
E o esqueceria para estar à deriva,
submerso, vagando pelas rotas iniciáticas.
As correntes autômatas da sedução trabalham, e têm destino claro.
Enquanto eu,
me ofereço e espero encantado como uma mercadoria na vitrine,
sob o efeito da sua artimanha talvez não intencional.
Mas quem decide?
Posso até encontrar a arca,
O tesouro é meu, enfim.
Mas não posso abri-la,
A chave é sua.

03/01/2002
Como é desconfortável sentir-se assim, e pior, por motivos imprecisos. Imprecisos talvez por opção, por receio de não ser como desejo. É melhor o incerto que embala do que o certo que basta, pois, como diz Pessoa, o que basta acaba onde basta e onde acaba não basta. Não é bom em certos momentos ficar a imaginar, porque no fim das contas o que as coisas são senão apenas probabilidades em nossa insana heurística? Escolhas alheias. Algumas que evito pensar, outras que evito tomar – as primeiras podem ser as suas e as outras quiçá as minhas. Talvez me sinto assim por não falar alto e claro o que sinto. Dessa forma evito algumas possibilidades que dou por certas – não quero te afastar, e já diz Pessoa, sempre...
Sempre ele a me entender, escrevendo frases que tomo como se fossem minhas. As vezes acho que ele me conheceu. Ou a ti, e se tivesse, ele poderia estar como eu. Mas pensando bem, ele não estaria. Será que você resistiria à tal maestria?
Os Motivos imprecisos continuam aqui. Será um medo seu ou falta daquela coisinha estranha que não entendemos mas conhecemos bem? Como uma coisinha pode mudar tudo, e nos deixar assim quando não sabemos se ela segue uma estrada de mão-dupla? Mas como disse, não quero te falar nada, vou seguir o conselho do amigo... Você nunca vai ver essas palavras, mas escrevo-as imaginando você lendo... Como é desconfortável ser assim e sentir o que sinto, e ainda com medo de deixar de sentir. Não sei se gosto do que sinto, não por ele, o sentimento, ser digno de se desgostar, mas por não poder te dizer o que ele é, escrevendo só aqui, pra você ler na minha idéia embaçada – um diálogo mais pra monólogo. Sou assim, feito de dúvidas, e vou me conformando com alguns breves momentos de corpos ainda não totalmente entrelaçados intercalados com minha imaginação. Se teu amor fosse igual ao meu...
Estou cego.
Só vejo a mim te vendo,
Mesmo sem te ver.
Estou surdo.
Só escuto o que tenho pra te dizer,
Mesmo sem te falar.
Talvez você não o queira escutar.
E o que você diria
Talvez eu não queira escutar.
Não, não fale!
falo!
Ainda, assim, tenho minhas ilusões.

Só me restou
C o r a g e m e d o
De permanecer sentiente
De sua lacuna
À mim te sentindo;
Intencional.
Além do mas,
Além do mal,
Quero esperar.
Permanecer sentiente.
Gosto do gosto que sinto
Sem paladar.
Quero do cheiro distante
Ausente no olfato.
De fato,
Sem tato,
Acho que gosto
De gostar.
E é isso. viu?
Arquitetura



Saudade do que não tive,
Mas como se houvesse.
Saudade do que ainda não tive,
Mas impaciente projeto e construo o passado.
O futuro será reformado!
Se pudesse esperar…
Imagino o traço e vou longe,
Não tenho nada com a gravidade – realidade.
Saudando o que não tive,
Esqueço o real - entediante e incorreto.
Saudando o que ainda não tive,
Projeto ideal-minto a saudade futura.
Saudade do que espero.
Espero porque não sei.
Desenho uma arquitetura banal!

14/11/2001
Horas de angústia...
O desespero que se confunde
Com esperança, mas revela-se
Como a mais sufocante forma.
A forma amorfa do medo.

Horas de angústia...
Como seria bom se existissem deuses
Afinal, eles poderiam decidir o que não ousamos
Ou não queremos decidir, pois
A forma amorfa do medo
Nos afoga
Nos afoba

Mas o tempo, com seu juízo eterno,
Se impõe... se mostra a nós.
Somente nesse ponto de vista
Podemos contemplar toda sua
Extensão,
Amorfa e constante.
Nos impedindo de pedir,
De rogar e de dizer
Aquilo que modelamos, ao menos idealmente.

A coragem é uma necessidade
Inatingível para os tímidos.
Partícula ideal.
Um ponto
no centro do ponto,
no centro do ponto,
no centro infintesimal
do ponto-ideal.

Arco-reflexo.
Reflexo do ato, em forma
de arco, do meu olhar
que num ponto – de tempo –
passou tonto por você.

Um frio que sobe a espinha,
e num ponto qualquer,
embaralha o andar,
embaça o pensar,
e dirige o olhar.
A um único ponto.
Quem será?
Quem explica?
Inexplicável!
Incomensurável e infinito – como o ponto!
"Cada coisa a seu tempo tem seu tempo",
tempo que será
tempo em que seremos, um dia,
dois, buscando a mesma coisa.

Fois, és e a seu tempo serás ainda mais.
O meu tempo é incerto e contraído,
E sigo catando as pistas de seu andar
O teu deve ser compreendido, contundente
E fluído.

Não quero fazer do seu caminho o meu,
Nem que mergulhes aos oceanos
Que me contive ao explorar.
A seu tempo, seguiremos
Por duas estradas intimamente
Paralelas, em cada curva segue àquela tênue linha
Que parece separar o banal do sublime.

O seu tempo não tem forma,
Seu fluir é maleável.
E não se reduz ao espaço,
Pois, já o teria,
Impaciente,
Percorrido.

Mas espero. Ouvindo
E pervertendo o pêndulo preciso.
"Cada coisa a seu tempo tem seu tempo".

08/12/2001
Seus olhos pareciam acompanhar
Aquela tênue linha que separa
O vazio do sublime.
Talvez, assim, descrevendo,
Numa inversão nevrálgica,
Seus pensamentos.
Mas seu corpo
Possuía aquele poderipnótico –
Inato, natural em algumas mulheres.
Sorte nas permutações
Cabalísticas do amalgama genético.
Contradizendo seu olhar,
Era firme e objetivo – preciso.
Puro equilíbrio da forma,
Mas certamente maleável –
Como seus olhos –
Ideal para ser modelado por mãos hábeis.
Pode ser que seu olhar
Fosse apenas indiferente...
Porém seria ao vazio ou ao sublime?
À cabala?
Ou nenhum destes, talvez não soubesse
Do poderipnótico... Não,
Toda mulher que o tem sabe, mesmo sem o saber!
Talvez ela apenas pensasse
no que faria para o jantar.
Que belo manjar seria aquele.
Ideal para ser degustado por língua hábil.
O ônibus chegou ao ponto...
E desci – atrasado.


08/03/01
Datilografia

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.
[f. pessoa]
Cinzas, sobre um chão cinza
Cismas da cinza, que ainda
Cisma, em reter o calor,
Outrora rubra,
Agora cinza.
Nem preto, nem branco – cinza
Um ponto qualquer
indefinido.
O vento...